Lisboa e Porto são as regiões do país com mais carência de camas de cuidados continuados

As áreas metropolitanas de Lisboa e Porto são as regiões do país onde há mais carência de camas de cuidados continuados, havendo localidades, como Cascais, sem uma única cama, disse à agência Lusa o coordenador da rede.
 
“Precisamos de investir muito [nestas regiões], nomeadamente em Lisboa, na criação de camas”, disse Manuel Lopes em entrevista à Lusa, a propósito dos 10 anos da criação da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), que se assinalam hoje.
 
A este propósito, Manuel Lopes adiantou que o Governo está em negociações com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para, “de uma forma muito rápida”, criar “um razoável número de camas” na cidade.
 
“O protocolo está praticamente concluído e pronto a assinar e brevemente estaremos em condições” de, em articulação com o terceiro setor, criar “respostas para estas pessoas”.
 
Nas restantes regiões, há situações pontuais para resolver, mas é preciso “investir muito mais na criação de equipas que levem os cuidados a casa das pessoas”, disse o responsável.
 
A criação de equipas de cuidados continuados “é muito mais barato para o sistema” e mais benéfico para as pessoas, argumentos que demonstram que os cuidados no domicílio “é o ideal”, frisou.
 
Atualmente, a RNCCI dispõe de cerca de 7.700 camas, estando a 55% do número que devia ter sido atingido em 2016, e apoia aproximadamente 6.500 pessoas em casa.
 
“Não chega, estamos longe de responder às necessidades das pessoas e, como tal, a aposta é na ampliação do número de camas, nos casos onde são claramente necessárias, e do número de respostas no domicílio em todo o país”, sublinhou.
 
Para este ano, o objetivo é criar 700 camas: “Vai ser difícil”, porque “o orçamento foi tardio”, mas, até ao momento, ”não temos nenhum indicador que nos diga que não vamos atingir esse objetivo”
 
Quanto ao número de equipas, o responsável explicou que as existentes ainda não estão a ser utilizadas no seu “máximo potencial”, podendo a sua capacidade ser estendida até, pelo menos, 90%.
 
Questionado sobre a verba investida na ampliação da rede, Manuel Lopes disse que “exige um investimento muito grande”, mas sublinhou que custa mais “não ter esta resposta”.
 
“Olhar para quanto custa a rede é sempre olhar de uma forma enviesada, porque custa muito mais não ter rede”, disse, explicando que o Estado está a “gastar imenso dinheiro” num sistema em que pessoas estão doentes e a “consumir imenso” sistematicamente.
 
Portugal dedica 0,6% do Produto Interno Brutos a este nível de cuidados, uma verba que considera “muito pequena” comparada com a média europeia, havendo países que aplicam dois a 3%.
 
“O dinheiro que estamos a utilizar é um bom investimento, não é um gasto, não é um desperdício”, porque “estamos a trabalhar para que as pessoas sejam autónomas até o mais tarde possível”, defendeu.
 
Por outro lado, se a rede funcionar de uma “forma muito ágil” também vai libertar camas nos hospitais.
 
“As pessoas estariam no hospital o tempo estritamente necessário para tratarem da sua situação aguda”, transitando depois para a rede para terem a resposta de reabilitação”, sustentou.
 
Também é necessário trabalhar na referenciação para “a tornar mais ágil, mais rápida, mais eficaz e dessa forma expandir a capacidade” de resposta.
 
O coordenador da RNCCI disse ainda que o Governo está a analisar várias situações de espaços que foram construídos, alguns com o apoio do Estado, que estavam fechados por diversas circunstâncias.
 
“Alguns porque a tipologia prevista para aquela zona já não era a que mais se justificava, outras porque a contenção não permitiu que se abrissem mais respostas”, explicou.
 
“Estamos a resolver caso a caso porque não podemos dizer que haja saturação em alguma parte do país, o que existe por vezes é uma desadequação entre uma determinada tipologia e uma determinada região”, rematou.